
Hackers aqueceram freezers de supermercados em toda a Europa durante a madrugada. Sem resgate, sem dados roubados, só estoque perdido. Rupert Hills, Partner do nosso time de Financial Lines em Londres, explica onde a perda realmente fica.
No último mês, supermercados em toda a Europa abriram pela manhã e encontraram seus freezers esquentando. A França foi atingida primeiro, em outubro. Em 2 de novembro, uma segunda onda chegou à Bélgica, Luxemburgo, Irlanda, Suécia, Finlândia, Estônia e Holanda, e em seguida Alemanha, Itália e Grécia. Os invasores acessaram controladores de refrigeração expostos na internet. Eles colocaram os equipamentos em modo de degelo ou aquecimento e, em alguns casos, mudaram a configuração de -27°C para mais de 50°C. Quando as equipes chegaram, o estoque já estava perdido. Na França, algumas lojas tiveram incêndios.
Não houve pedido de resgate e nenhum dado foi levado. Foi sabotagem pura.
Então, onde fica a perda? Foi a pergunta que mais ouvi nesta semana. A resposta honesta é que provavelmente não é onde a maioria dos varejistas imagina.

É o seguro cyber?
Uma apólice cyber específica deve responder bem ao incidente em si: resposta a incidentes, perícia forense, restauração de sistemas e, possivelmente, interrupção de negócios. Mas a maioria dos textos de apólices cyber exclui perda ou dano físico a bens tangíveis. Estoque refrigerado e congelado estragado é um bem tangível, então a maior parte do valor do sinistro pode ficar fora da apólice.
É dano físico de origem cyber?
É para onde o mercado vem apontando quando fala de risco “cyber-físico”, e os incêndios na França vão colocar isso à prova. Mas, na maioria das lojas, o equipamento de refrigeração não foi danificado. Ele fez exatamente o que mandaram fazer. As apólices patrimoniais também trazem cada vez mais exclusões cyber (LMA5400 e similares), que retiram a cobertura de perdas causadas pelo uso malicioso de um sistema de computador, a menos que a cobertura tenha sido reincluída.
Onde a perda realmente fica: deterioração de estoque
A maioria dos programas patrimoniais de varejo e de alimentos inclui uma extensão de deterioração de estoque. É o lugar natural para essa perda, porque o estoque estragou por causa de uma mudança de temperatura no equipamento de refrigeração.
O problema está no gatilho. Muitas extensões respondem a “quebra”, “falha mecânica ou elétrica” ou “falta de energia da rede pública”. Um invasor remoto que altera uma configuração não é uma quebra, porque a máquina funcionou perfeitamente. Some a isso uma exclusão cyber sobre toda a apólice patrimonial, e uma extensão que parece limpa pode falhar por dois motivos.

O que os clientes devem fazer agora?
- Leia juntas a cláusula de deterioração de estoque e a cláusula cyber da apólice patrimonial, e não separadamente.
- Peça às seguradoras que confirmem por escrito que uma alteração maliciosa ou não autorizada nas configurações de temperatura, inclusive feita por meio de um sistema de computador, é um gatilho coberto.
- Verifique o limite. As extensões de deterioração costumam ter sublimites pensados para a falha de um compressor, e não para 40 lojas em uma única noite.
- Verifique se a apólice cyber tem reinclusão de bens tangíveis ou de “bricking”, e como as duas apólices se encaixam, para não acabar preso em uma disputa entre elas.
- Tire os controladores da internet aberta. As seguradoras vão perguntar.
É para cá que o risco cyber está indo: um ataque barato à tecnologia operacional, sem dados envolvidos, e a perda caindo sobre bens físicos. A pergunta não é “temos seguro cyber?”. É “qual apólice paga, e já garantimos que uma delas pague?”
Se quiser uma segunda opinião sobre como o seu programa de seguros responderia, fale com o Rupert (em inglês) ou com o seu contato habitual na Oneglobal.
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Saiba como apoiamos clientes com seguro cyber na nossa página de Cyber Risks (em inglês).
SOBRE O AUTOR
Rupert Hills
Partner, Financial Lines, Londres
Rupert assessora clientes em riscos cyber e de financial lines. rhills@ogbroking.com
Este artigo é uma edição especial da Global View, a revista da Oneglobal sobre os riscos que moldam os mercados globais. Assine a Global View gratuitamente e receba todas as edições no seu e-mail.